Eidy - O Reino de Sólis

003

Dois pares de olhos temerosos, nas cores azul e castanho claros, presenciam de posições diferentes esta visão desesperadora e gritam em resposta ao medo que castiga seus corações. Os irmãos Marcelo e Fernando, também conhecidos entre os combatentes do exército Stars como Cólera e Pungente, sentem o sangue gelar ao enxergarem o pai cair inerte ao chão.

Marcelo Carvalho, seu primogênito de 1,75m, pele clara, possuindo cabelos castanhos, com mechas avermelhadas, rente na nuca, mas comprido até suas bochechas e trajando um uniforme cinzento, aniquila com a vida de seu adversário, cravando sua espada, que possui o formato similar ao de um raio, na garganta da fera. A lâmina sobe atrás de seu queixo e perfura o interior da cabeça. Sua outra mão segura com firmeza o crânio e retira sua arma em um movimento rápido antes de correr em socorro de seu Pai, Rei e Guardião.

Seu irmão, o terceiro da linhagem a nascer, tenta livrar-se dos adversários que o detém. O príncipe Fernando Carvalho tem altura de 1,77m, possui olhos castanhos claros e cabelos castanhos escuros, rentes nas laterais e na nuca, mas arrepiados no alto e voltados para trás. Sua barba está por ser feita. O uniforme que traja é mesclado entre preto e vermelho. Rosnando de raiva pelo atraso que seus adversários lhe atribuem, ele tenta livrar-se de seu fardo.

O príncipe mais velho avança entre os combatentes aliados e invasores até alcançar seu objetivo, ajoelhando-se em uma poça de chuva ao lado de seu pai, na esperança de ampará-lo.

– Pai, pai, acorda pai! – Uma fera invasora salta em sua direção segurando o machado com ambas as mãos – Some daqui! – O príncipe grita e atira sua espada, que segue girando, na direção do inimigo, perfurando seu peito e empurrando-a de volta. – Pai, por favor, acorda! – Seus olhos enchem-se de água e transbordam. – Meu Deus! Acorda pai!

Receoso em agravar seu estado de saúde, sua mão trêmula hesita em tocar seu corpo e dirige-se a face na tentativa de reanimá-lo.

– Morram! – Enraivecido, o combatente Pungente grita golpeando descontroladamente seus adversários, fazendo jus a sua alcunha. Seu corpo é castigado por novos ferimentos, mas seus inimigos são aniquilados no processo.

Respirando fundo pela boca, seus olhos se viram para a direção de seu irmão, deixando-o atordoado ao vê-lo ajoelhado com a cabeça baixa.

– Não. Isso não esta acontecendo... – Pensa apreensivo.

Com passos largos ele começa a correr até sua família, permanecendo imóvel ao lado de ambos.

– Não, não meu pai! Por favor, acorda! – Suplica seu irmão agarrado aos ombros de seu progenitor, com lágrimas a escorrerem por suas bochechas, misturadas com o pranto do céu.

Fernando desvia o olhar inclinando a cabeça e tenta segurar as lágrimas que invadem seu rosto.

– Marcelo, ele está... bem? – Pergunta hesitante, mordendo os lábios inferiores. Terminado de pronunciar sua frase, o príncipe permanece em silêncio.

Seu irmão mais velho para de se mexer e permanece imóvel por alguns segundos com os olhos fechados. Sua raiva toma tamanha proporção ao percorrer por seu corpo, subindo por sua coluna e contraindo seus músculos, fazendo seu corpo começar a tremer. Sua expressão é de dor. Seus olhos permanecem fechados com pressão e sua boca se abre ostentando os dentes.

Fernando começa a sentir falta de ar, o que faz seu corpo balançar. Ele luta para permanecer de pé, mas não resiste e cai de joelhos no chão úmido, com uma das mãos sobre a coxa e a outra nas pedras umedecidas.

Marcelo para de se mexer novamente e permanece com todo o corpo imóvel. Seu rosto adquire uma expressão séria. Seus olhos azuis se abrem revelando um olhar voraz, banhado de luz. Lentamente seu corpo se levanta, emanando uma energia esbranquiçada que rapidamente se torna amarelada. Os olhos fraternos castanhos encontram os do irmão, quando este inclina o rosto molhado em sua direção.

– Cuide dele... – Sua voz sai falhada.

Ao virar seu tronco novamente para frente, o primogênito do Guardião grita, expelindo toda a sua energia, deixando seu corpo dourado com uma aura brilhante e viva como o fogo. Seus cabelos castanhos com mechas avermelhadas agitam-se ouriçados e seu corpo fica totalmente ereto com os braços elevados. Seus músculos se expandem pela tensão, que é carregada pelas veias que surgem próximas as suas têmporas e sobre as laterais de seu pescoço. A água da chuva que o atinge começa a evaporar ao contato com sua agitada energia.

O príncipe fecha seu punho direito e materializa sua espada, que surge em sua mão com uma rajada forte de faíscas energéticas. Sua aura eleva-se mais de quatro metros do chão. Com olhos brilhantes em uma tonalidade quase branca e os dentes rangendo, alimentados por uma fúria assassina, o primeiro filho da família mais poderosa dos guerreiros solirianos ataca ferozmente todos os invasores que encontra em seu caminho.

– Isso é o que vocês querem? Então provem! Seus malditos desgraçados. Vocês nunca nos deixaram em paz. Sempre nos invadiram para tentarem nos matar e escravizar. Agora vocês terão o que merecem! Querem esse mundo, venham pegá-lo de mim! – aos gritos seu suplício guia-o em um caminho de sangue e morte.

Soldados próximos ao local veem que seu Guardião foi abatido. Essa visão inacreditável desperta medo e raiva em seus corações, pois, seu Rei é o maior exemplo de zelo pelas demais pessoas e agora ele pode estar morrendo.

– Não! Protejam-no custe o que custar. Alguém encontre um médico imediatamente! – Com o grito desesperado de uma soldada, seus aliados se aproximam do Guardião para protegê-lo dos demais ataques.

– Vocês três! Encontrem um médico ou manipulador de energia e tragam-o para este local agora! Estamos sem contato com o quartel general devido às interferências deles. Vão pessoalmente buscar ajuda! Rápido! – Ordena o oficial Marlon Bringues, um soliriano de meia idade, com os cabelos esverdeados, de pele negra e olhos claros.

Apressados, com passos largos e desviando dos ataques das feras ainda presentes no combate, três soldados espalham-se atrás de socorro. O último entre eles, um jovem de dezesseis anos, fraco fisicamente - mas detentor de uma incrível velocidade -, encontra outro dos Comandantes do Exército Stars atribuindo ordens para um pelotão pequeno, que avança contra uma das feras quadrúpedes de mais de quatro metros, remanescente no combate.

Seu nome é Kémeron Hofnov, responsável pela cidade-estado de Sladké Valley. É um homem de vinte e cinco anos, de cabelos castanhos com fios dourados, que possui uma longa trança que desce até suas coxas. Possui também uma franja rebelde sobre suas sobrancelhas castanho-dourada. Sua estatura mede 1,78m, possuindo um porte físico todo definido, mas não grande. Seus olhos possuem a tonalidade cinzenta. Suas vestes superiores foram rasgadas nos braços e arrancadas pelos invasores, revelando suas cicatrizes de queimaduras causadas em sua infância, que percorrem todo o comprimento de seus dois braços.

Ofegante, o jovem soldado aproxima-se de seu superior e grita seu nome em auxílio, antes de freiar seus passos e cair bruscamente ao chão.

– Comandante Kémeron! Aqui por favor!

– O quê foi? – Seu oficial vira-se para ele inclinando seu tronco e sua cabeça para trás.

– O Guardião foi abatido! Esta no chão correndo risco de vida!

– O quê? Mas como?! – Irritado pergunta, voltando-se para ele.

– Precisamos chamar um médico! Onde eles estão? – Questiona o soldado, levantando-se novamente.

– Como eu vou saber disso? Minha posição é na linha de frente. Não sei quantos restaram para socorrer os feridos, mas provavelmente estejam próximos dos portões da cidade! – Diz bruscamente.

– Comandante... – suplica o jovem, respirando com dificuldades.

Ouve-se um longo rosnado da fera, que fere seus ouvidos.

– Senhor! Precisamos de sua ajuda! – Suplica outro subordinado, agarrado a sua espada que perfurou as costas da criatura.

– Senhor, o Guardião! – Insiste o primeiro.

– Espere! – Seu comandante olhando-o com preocupação, não sabendo o que dizer. – Tudo bem. Você vai buscar ajuda. Procure alguém, qualquer um que possa utilizar o yocan ou outro tipo de ajuda para curar os ferimentos do Rei. Onde ele esta agora?

– Lá!  – Aponta o jovem na direção em que veio.

– Certo. Qual seu nome soldado?

Ivan. Ivan Quarts, Senhor.

– Muito bem Ivan. Corra em direção dos portões e caso encontre algum dos demais comandantes, oriente-os para se dirigirem até o Rei! Agora vá depressa!

– Sim senhor! – Responde, se afastando em alta velocidade.

Kémeron observa a direção em que o Guardião se encontra desprotegido, enquanto seu pelotão chama-o novamente. Habilmente ele gira sua espada espiral de cor anil, concentrando uma quantidade significativa de energia azul-escura sobre a mesma.

– Saiam daí! – Grita por fim.

Quatro soldados que circulavam a fera, e o último que estava sobre ela, correm afastando-se da criatura que está vulnerável para o ataque.

Fulminante cholera! – O Comandante corre aproximando-se da criatura e estende seu braço liberando todo o fluxo de energia de sua espada. O golpe atravessa parte do peito e do pescoço da fera, originando um buraco por onde jorra seu sangue negro sobre o solo.

Respirando profundamente pelas narinas e limpando a face com uma das mãos, seus olhos seguem novamente para a direção em que se encontra seu líder. Seus subordinados aproximam-se animados.

– Excelente trabalho, Comandante! – Parabeniza-o um deles.

– Venham todos comigo. O Rei foi ferido e temos que protegê-lo até que chegue o socorro. – Informa, começando a seguir em direção de seu soberano.

– O quê? Isso é impossível! – Questiona outro soldado.

– Vamos agora! – Ordena com autoridade. Todos o seguem a passos acelerados antes de começarem a correr.

Com a progressão deste combate, os invasores percebem sua atual desvantagem numérica e se concentram em grupos na tentativa de aumentar sua força de ataque, pois suas baixas estão quase se tornando completas. Com a morte do C.on (Imperador) em combate, a autoridade de todos os Kártamas (Guerreiros) presentes na invasão recai sobre o Fhst (General) garnaxiniano.

Ele é um Kártama (Guerreiro) de 1,98m, com ossos pontudos saltados em seus ombros, espinhos sobre seus olhos e espalhados nas laterais de seu queixo largo. Possui três chifres curvos voltados para cima, na parte inferior em seu crânio. Seus olhos cor de verde-musgo agitam-se com aproximação de seus adversários. Sua pele possui a tonalidade escura, com pouquíssimas manchas claras sobre ela. Sua mandíbula é grande e similar às feras quadrupedes de seu mundo. Sua força é temida por seus semelhantes e sua sede por combate amedronta seus desafetos.

Ainda ignorante a este acontecimento, o Fhst (General) aniquila mais uma de suas vítimas e volta a observar a situação do combate. Sem piedade ele extingue outra vida humana que avança em sua direção. Então suas garras da mão direita perfuram o orifício metálico em seu peito e acionam seu transmissor para comunicar-se com a nave mãe garnaxiniana.

– Fon suis krarir. (Não conseguimos avançar). Kurle próri i ebrur kir.rer? (Onde esta o líder deles?). Nenfe ruo óur? (Qual sua posição?). Marda kurle bór xér? (Para onde devo seguir?) – questiona entre os dentes, proferindo sua voz grave.

– Fhst. I ebrur humano próri tondal gí 7.3.6 Jonkis. (General! O líder humano esta ferido a 736m a leste de sua posição). Crin próri rerou. (Ele está abatido). Congir nóulgis crinlors egin fon ro surde. (São passados ciclos que não se move) No reinin egin prórie sucre in nenfór! (É possível que esteja morto ou quase). – Informa-lhe a voz no transmissor.

– Lesi crin jumir tondal? (Como ele foi ferido?) I C.on próri porlis? (O Imperador está ciente?).

– Jumir i C.on eginim duoir i Tondali! (Foi o Imperador quem causou o ferimento).

– Kióur crin próri trórimi ví gunder? (Então ele esta presente no planeta?) Lins egin nérim fon i vraristur? (Por que ainda não o assassinou?).

– Surerir egin i C.on prórie sucre! (Acreditamos que o Imperador esteja morto!).

– I egin? (O quê?). Lesi crin... (Como ele...). – Dois soldados solirianos atacam-no.

O primeiro perde sua perna direita e a mão esquerda pelas garras do invasor, sendo por fim arremessado ao chão com um chute em seu queixo. O segundo é nocauteado com um murro em seu rosto, que gira seu corpo antes de deitar-se desacordado.

Lesi no reinin egin crin prórie sucre? – (Como é possível que ele esteja morto?) – Conclui.

Prórinim lou.xon xors i egin próri lielor ví kyoriravãn ju i tarne re C.on ouér fon ro surde! (Estamos vendo tudo o que está acontecendo no campo de batalha e o corpo do Imperador também não se move!).

– Crurnes (Interessante). Kurle crin próri? (Onde ele está?). – O Fhst (General) levemente suspira de satisfação.

– Mérmor re tarne re ebrur humano, 7.3.6 jonkis. (Perto do corpo do líder humano, 736m a leste de sua posição).

– Kióur rá jór óx armir orblivon! (Então eu irei terminar nossa missão!) Amórum ri lender. (Aguardem meu contato).

O Fhst (General) pronuncia essas palavras sorrindo, um feito quase que exclusivo entre os Kártamas (Guerreiros) de maior prestígio em Garla, pois, seus subordinados tendem a suportar muito sofrimento até que sejam reconhecidos pelo seu valor e contribuição à causa garnaxiniana, recebendo assim, prestígio entre seus semelhantes.

– Dringer! (Entendido)! – Fim de transmissão.

No interior obscuro da sala de comando garnaxiniana, os demais Kártamas (Guerreiros) influentes, que costumam travar outro tipo de combates, dividem suas opiniões sobre o ocorrido.

Flóri próri aranstor crinlors uarlos. (Isso está demorando ciclos demasiados). Burdarim liéu gunder duoir gluom lór marda armun. (Nenhum outro planeta causou tanta vergonha para nós). – Afirma um dos Krontus (Conselheiros) presentes, envolto quase que completamente em um manto de cor azulada, sendo possível enxergar apenas seus olhos alaranjados e os espinhos elevados em seu crânio.

Is kruntarlis inér jumiror armur adiler iones. (Os meteoros de intimidação sempre foram nosso melhor ataque). Mirer, fon no i dã marda vraristar is humanos. (Porém, não é o suficiente para assassinar os humanos). – Responde outro Kártama (Guerreiro) de baixa estatura, curvado sobre as pernas, com braços compridos carregados de espinhos.

Kór i C.on rur prórir sucre. (Agora o Imperador pode estar morto). – Diz o Krontus com uma considerável satisfação.

Ro i C.on próriri xurer sucre, i Fhst próri vi lódran res Kártamas ví gunder ju jir egirir i ornum ki Garla. (Se o Imperador estiver realmente morto, o General está no comando dos Guerreiros no planeta e irá querer o trono de Garla)! afirma Kext, ironizando a situação. Sua face é iluminada pela luz de um cristal esverdeado que revela sua face magra, com a pele rente aos ossos.

– Fon. (Não). – Um garnaxiniano aproximando-se com passos sonoros e a espada em mão – Crin fon jir! (Ele não irá)! I órnun ki Garla no ri! (O trono de Garla é meu)! – Informa o Kártama (Guerreiro) de grande porte, com seus brilhantes olhos amarelos e os longos espinhos que balançam em seu crânio enquanto se aproxima de seus semelhantes.

Sua presença é notável e desperta incômodo em muitos dos presentes na sala. Com o ajoelhar de Kext, seguido por sua crise de tosse e sorrisos, olhares receosos são trocados entre os demais e um a um, eles também repetem seu gesto de respeito e submissão.

No planeta a batalha continua favorável para os solirianos, porém, seu líder corre risco de vida, devido a seus ferimentos. Sua filha enxerga o pai caído e perde a noção da realidade, permanecendo com seu corpo imóvel, aterrorizada pela verdade encontrada. Sua vida apenas é poupada pela intromissão do General das Forças Stars, que surgiu entre as feras que avançavam em sua direção e conseguiu extinguir com suas intenções mortais.

– Sheilla! Sheilla acorde! – Chama-a em alto tom, com os olhos focados nos dela – Não me reconhece? É Victor. Victor Krópker! Acorde Sheilla. – Grita segurando com pressão seus ombros.

– Victor... – Repete ela com um sussurro.

– Isso mesmo, princesa. Necessitamos de sua ajuda. É a única em um raio de 300m que encontrei que pode utilizar o yocan. Seja rápida e venha comigo!

A princesa ainda reluta em responder por alguns segundos, mas concorda consentindo com a cabeça.

– Eu acredito em sua capacidade, proteja nosso Guardião!

– Vamos! – Responde com mais confiança.

– Eu lhe darei cobertura, alteza. Acompanhe-me!

Sheilla corre em direção do pai, seguindo o caminho aberto pelo robusto general de 1,87m, de pele branca, que possui olhos de ascendência asiática na cor de um azul profundo como o oceano. Seus cabelos cinzentos, que ostentam um corte comprido de moicano, balançam devido à velocidade que corre. Ele veste um uniforme negro com pequenas lâminas nos ombros, cotovelos e joelhos. Mesmo não estando visível neste momento, a princesa recorda-se que este homem, que já salvou sua vida em outras ocasiões, possui as costas cobertas por cicatrizes causadas pelas garras destas feras alienígenas e que seu pescoço, em sua infância, uma vez foi rasgado pelas mesmas criaturas que retornaram para aterrorizar seu mundo.

Apreensivos, ambos os combatentes e vítimas desta ameaça seguem em direção do círculo de guerreiros solirianos que se formou em volta de seu soberano. Rapidamente a princesa alcança seu irmão e cessa os passos ao seu lado. Este se vira para ela de modo ameaçador, mas ao reconhecê-la volta a olhar para seu protegido.

– Você pode salvá-lo? – Seu tom de voz é triste.

Sheilla permanece calada. A pergunta de Fernando a atinge como um sopro forte em seu peito. Seu irmão olha-a mais uma vez com olhos ferozes e concentra-se novamente em seu pai.

– Faça o possível! – Pede mordendo o lábio.

– Sim. – Ela junta às mãos e concentra-se, emanando uma energia esverdeada sobre elas. – Tire isso dele, agora.

O Rei agoniza por um momento, mas continua desacordado. Sua filha se desespera colocando bruscamente ambas as mãos sobre o abdômen de seu pai, iniciando o tratamento para curar seus ferimentos.

Suya non yocan. – Em baixo tom ela pronúncia suas palavras.

A frente da barricada humana, combatendo praticamente sozinho os invasores que avançam contra ela, o General Victor sente sua energia esgotar-se gradativamente. Seu corpo é empurrado para trás, sendo arremessado ao chão, devido a sua tentativa de impedir o ataque frontal de uma fera quadrúpede que perece sobre sua espada negra, com duas lâminas extras em sua guarda de mão voltadas para extremidade da arma.

A grande criatura pressionou sua mandíbula sobre a perna do guerreiro soliriano e teve sua garganta dilacerada pela arma do general, quando inclinou sua cabeça em um movimento de arremesso. Victor cai ao chão com o membro preso entre os dentes da fera de cor clara, com pequenos olhos alaranjados e espinhos por todo seu corpo. Inesperadamente surge outro garnaxiniano a sua frente, que pisa sobre a armadilha que o mantem preso e ergue seu machado direcionando-o sobre sua nova vítima.

Com a morte a expandir seus olhos, o general contrai seu braço e cabeça para desviar da lâmina que parte uma pedra em inúmeros pedaços. Seu rosto é ferido por uma lasca da rocha que saltou sobre si e cortou sua bochecha. Um novo movimento forte da fera e sua arma volta a elevar-se para cima em um gesto ameaçador.

Novamente ela começa a descer em sua direção. Tateando o solo rochoso com sua mão, Victor segura uma pedra e a arremessa sobre a face de seu carrasco. O impacto desvia a direção que o machado seguia e atinge seu ombro, cortando sua vestimenta negra e ferindo levemente sua carne com um novo corte.

Exausto e praticamente indefeso, o grande general concentra a energia que lhe resta em sua mão esquerda e libera seu fluxo no braço do garnaxiniano. O Kártama (Guerreiro) berra de dor pelo membro que se separa de seu corpo e ataca Victor com suas garras remanescentes. Sua vestimenta resiste ao golpe que dilaceraria sua carne, mas não ameniza a dor que lhe proporciona. O guerreiro soliriano tenta afasta-se do invasor, caindo novamente deitado no chão úmido e pedregoso.

Um longo berro é expelido pelo invasor. Seus grandes olhos alaranjados focam em sua presa e sua mandíbula se abre por completa. Com a inclinação de seu corpo, a fera joga-se sobre sua presa. Novamente correndo risco de vida, Victor sente pela primeira vez o medo congelar seu corpo. Suas forças se esvaem e o pavor força-o a apenas olhar no fundo dos olhos de seu assassino.

Um movimento rápido e tudo está terminado. Respirando com dificuldades, Victor sente o sangue negro banhar sua face e descer por sua garganta. Com os olhos ardendo e um gosto terrível em sua boca, ele enxerga a presença de outro guerreiro ao seu lado. Ouve-se novamente o som riscado de uma lâmina e sua perna finalmente é libertada. Sua mão pouco tremula esfrega seu rosto e limpa seus olhos, permitindo que ele enxergue quem é o seu salvador.

Imóvel ao seu lado, com seus brilhantes olhos azuis a olhar para barricada humana, seu melhor amigo e companheiro de treinamento desde a juventude permanece em silêncio a emanar uma pequena aura dourada.

– Obrigado pelo reforço, Marcelo. – Responde com pausa, tentando ficar em pé novamente, cuspindo o sangue de sua boca.

O príncipe olha para seu amigo, desferindo um olhar sombrio na medida em que sua energia altera de tonalidade e se torna na cor azul marinho.

Sua mão se abre e dirige-se a face de seu amigo, repousando a palma sobre sua testa. Em apenas um instante os olhos de Victor se fecham com força e seu corpo sofre um espasmo involuntário.

Marcelo recolhe novamente sua mão enquanto sua fraca energia retorna à tonalidade anterior e observa-o cair de joelhos se apoiando com força sobre as mãos.

– Preciso de você no combate. Se ainda estiver apto, levante-se novamente e avance meu Irmão! – Pede o príncipe.

Stars para sempre, meu Irmão! – Responde Victor com um sorriso escondido e uma das mãos a emanar uma fraca energia instável de cor esverdeada sobre o ferimento de sua perna.

O príncipe acena de modo positivo com a cabeça quando seus olhos se encontram e se afasta apressadamente ao encontro de uma dúzia de invasores que correm em sua direção.

– O que houve com você meu amigo? Este não é o Marcelo que conheço. – Pensa o general, observando-o ir adiante. Ele se posta de pé se apoiando na outra perna devido ao seu ferimento.

Protegida dentro da barricada a princesa continua a cicatrizar os ferimentos de seu pai, pressionando e deslizando suas mãos sobre eles. O estado crítico de saúde do Rei já apresenta melhoras, mas ele ainda permanece inconsciente. Os olhos de sua filha continuam a transbordarem em lágrimas e seu peito dói pelo medo, pois ela ainda não é experiente na arte de manipulação de energia curativa. A princesa apenas possui uma facilidade maior que os demais presentes em canalizá-la e moldá-la a sua vontade, mas ainda esta longe de ser considerada apta a fazê-lo.

Suas lágrimas continuam a transbordarem por sua face. Fernando une as mãos e se concentra emanando uma aura brilhante de cor avermelhada. Ele coloca as mãos sobre as da irmã para aumentar o poder da técnica. À medida que sua energia é transmitida para ela, sua coloração varia do vermelho brilhante ao verde mais claro que qualquer íris soliriana.

Para aumentar ainda mais a angústia que castiga seus corações, Kártamas (Guerreiros) surgem por todos os lados e aproximam-se do local, avançando ferozmente em direção da barricada humana saltando sobre os solirianos com suas mandíbulas exaltadas e suas armas cortantes em punhos.

Afastados a centenas de metros desta posição, os invasores acionam uma espécie de bazuca e disparam contra o campo de força que ainda resiste sobre a cidade. O impacto do disparo reflete sobre a superfície energética e se choca contra as pedras próximas da posição do Guardião e de seus protetores. A explosão causada arremessa diversos dos soldados Stars para longe de suas posições, incluindo as partes do corpo do C.on (Imperador) que também desaparecem.

Quando o tremor cessa, a princesa percebe que seu irmão, seu pai e a própria, permanecem no mesmo local, pois, o mais jovem dos comandantes, Métt Krópker, apareceu a tempo de evitar o impacto.

Responsável pela cidade-estado de Banilon o combatente de ascendência asiática possuí 1,65m. Em sua cabeça possui cabelos negros, compridos e voltados para trás com uma pequena franja a frente dos olhos azuis. Seu tom de pele é branco e ele está trajando uma veste esverdeada com detalhes azuis grafados em mandarim. O soliriano de vinte anos ergueu seus braços para o alto com a palma de suas mãos abertas e criou uma barreira negra, pouco transparente, que envolveu os príncipes, o Rei e a si.

– Não se preocupem com mais nada. Eu protegerei todos vocês. Ninguém vai entrar em meu domínio! – Afirma com confiança.

– Métt! – Diz o príncipe com surpresa e gratidão.

– Obrigada! Fernando concentre-se. – Chama-o sua irmã.

– Certo. Resista pai, você consegue. – Ambos retornam ao trabalho.

Atrás do comandante é possível encontrar o soldado Ivan que retornou com um poderoso aliado para fortificar a defesa de seu soberano, mas não teve sucesso em localizar outro manipulador de energia para auxiliar a princesa em sua missão.

Próximo a eles Kártamas (Guerreiros) remanecentes encontram a parte superior do corpo de seu C.on (Imperador) e avistam o Rei soliriano protegido dentro da esfera negra, com seus semelhantes. Uma série de gritos são expelidos pelos invasores, antes de iniciarem sua marcha em direção do líder inimigo.

– Droga. Eles nos acharam. – Afirma Métt, de moto cauteloso.

O príncipe olha para a mesma direção que seu salvador e vê outro grupo de invasores manchando em sua direção.

– Fernando, eu não posso fazer isso sem sua ajuda! – Pede Sheilla, com a respiração pesada devido à exaustão que a consome.

– Está bem. Continue! – Grita concentrando ainda mais energia em suas mãos.

– Vocês não vão passar por nós! – O comandante também emana sua energia, que possui a cor azul-escura, alimentando sua esfera.

Seus olhos tornam-se brancos e brilhantes. De sua redoma surgem ondulações que se agitam e aumentam gradativamente seu tamanho até assumirem a forma de correntes energéticas brancas que se separam da esfera e a circulam.

Crudelis poenitentiae. – Sussurra Métt, desferindo seu ataque.

Com a aproximação dos invasores, as correntes energéticas aumentam de proporção e se expandem multiplicando sua quantidade e área de alcance. Quando os garnaxinianos adentram em seu domínio, os elos brilhantes circulam seus corpos e bloqueiam seus movimentos contorcendo seus membros de forma dolorosa. Imóveis e vulneráveis, os Kártamas (Guerreiros) sentem suas vidas serem drenadas pelo castigo que se alimenta de seu próprio sofrimento. A cada invasor que sucumbe, uma nova corrente se desprende da esfera negra e se expande em direção contraria a sua origem.

Os invasores interrompem sua investida e observam de uma posição segura, intocáveis pelas correntes famintas. Para sua surpresa, eis que surge o Comandante Kémeron aproximando-se com seu pequeno pelotão, para dar suporte à missão de salvamento.

– Chegamos. Matem todos eles. Vocês aí... – referindo-se aos príncipes – façam o melhor! O resto é conosco! Espalhem-se em duplas e mantenham formação de defesa. Não se encostem a essas correntes!

Os garnaxinianos observam seus adversários a uma distância de aproximadamente 90m da nova barricada. Os solirianos estão cercados por todos os lados por uma quantidade de soldados inimigos que deve ser próxima a 60 criaturas. O Rei cospe sangue novamente e suja o pescoço, deixando sua filha ainda mais tensa.

Afastado deles, o Fhst (General) garnaxiniano se aproxima do corpo morto de seu C.on (Imperador) e olha-o com desprezo guiando seu olhar para onde se encontra o líder soliriano. Ao observar que seus Kártamas (Guerreiros) não conseguem avançar, ele começa a caminhar em direção de seu objetivo, atravessando o combate ainda travado e golpeando os solirianos que estão no seu caminho. Ele enxerga o desespero da princesa e sorri novamente.

– Nunra no ri humano! (Você é meu humano)! Crólar! (Afastem-se)! – Ordena o soberano. Seus subordinados voltam a atenção em sua direção, grunhindo repentinamente – Rá jór vraristar fuor humano norkun. (Eu irei assassinar esse humano nojento). – Conclui.

O Fhst (General) rosna e corre em direção dos inimigos, passando por seus subordinados, com o corpo inclinado para frente e a espada esticada para trás ao lado do corpo.

– Não vamos permitir. Matem-no! – Ordena o Comandante Kémeron.

Liderando o ataque defensivo, o comandante e três de seus subordinados atacam a criatura. O Fhst (General) salta por cima dos combatentes e desvia rapidamente das correntes que se agitam com sua aproximação.

Kémeron retorna em alta velocidade, também desviando das correntes famintas e lança sua espada contra o invasor, carregando-a com sua energia de cor escura, mas seu adversário desvia de seu golpe e continua seu caminho em direção do campo protetor. O poderoso Kártama (Guerreiro) ergue sua espada para o alto e gira um mecanismo na lâmina que deixa sua espada fazendo-a emitir uma luz brilhante azul-marinho.

As correntes de Métt se contraem e atacam o Fhst (General) quando este se aproxima perigosamente de seu ninho. Com precisão e uma incrível facilidade, o garnaxiniano corta as correntes que o atacam, antes de saltar sobre seu alvo levantando sua espada com ambas as mãos até suas costas. Com um rápido movimento, seus braços seguem para frente e sua espada desce ao chão desferindo um golpe certeiro na barreira protetora.

Evitando novos ataques dos solirianos, a criatura salta para trás executando mortais no ar, defendendo-se de correntes remanescentes até cair no chão a uma distância de 30m e saltar para trás até estar em segurança. O Comandante Kémeron corre em sua direção para atacá-lo novamente com sua arma. Seu adversário defende-se levantando a espada do soliriano com a sua e lhe acerta um soco em seu peito jogando-o para trás rolando no chão. Então seus olhos se voltam para o outro comandante.

– Droga. Seu maldito! – Reclama Métt rangendo seus dentes.

Em seu campo protetor surge um corte causado pela lâmina da espada do Fhst (General) fazendo-o diminuir a intensidade e desintegrar as correntes energéticas. Em seu interior surge uma descarga elétrica que envolve o corpo do comandante provocando dor em seu sistema nervoso. Seus olhos permanecem semiabertos e seu corpo treme lutando para permanecer de pé.

Seu colega dirigente torna a ficar de pé e segura sua espada que está perfurando o solo. Com o toque em sua superfície, ele recebe uma descarga elétrica em sua mão. Em seguida ela desmaterializa-se por completo.

– O quê? – Ele ergue-se e olha pensativo para o invasor. – O que foi que ele fez? A espada dele está com essa luz agora. Esse maldito repeliu meu golpe com ela e deve ter transferido para a minha essa descarga elétrica. Seu miserável.

Acometido por uma epifania, seus olhos se dirigem para seu Irmão de Combate e enxergam seu amigo envolto em uma descarga elétrica tremendo todo o seu corpo, com um dos olhos fechados e o outro pouco aberto piscando freneticamente. Seu estado encontra-se lastimável e doloroso de se presenciar.

– O golpe que ele desferiu descarregou uma corrente elétrica tanto em minha espada como na barreira de Métt. – Pensa Kémeron – Por ter soltado minha arma não sofri dano maior, mas enquanto ele, por estar alimentando este campo protetor à energia daquela espada, está percorrendo e castigando o seu corpo. O único modo de evitar isso é desfazendo a barreira, mas assim essa coisa terá a chance de desferir um golpe mortal em nosso Guardião. – Conclui temeroso e irritado.

O comandante permanece tenso com o olhar no adversário sem saber como agir.

– Kémeron! Não se preocupe comigo. Acabe com ele! – Insiste Métt.

– Resista amigo! – Suplica Kémeron, abalado ao presenciar seu líder e aliado desta maneira.

– Vai logo! – Grita o jovem, gemendo pela dor que não permite mais que seus olhos permaneçam abertos.

O Comandante Kémeron encara o adversário com um olhar sério. A chuva começa a diminuir sua intensidade, mas perdura em banhá-los. O invasor rosna inclinando seu corpo para frente e prepara-se para iniciar um novo ataque. Cada combatente olha no fundo dos olhos de seu adversário. É o Fhst (General) quem faz o primeiro movimento iniciando uma rápida aproximação com suas pernas em direção de sua presa. Ele segura sua espada com a mão esquerda, inclina todo seu corpo para frente e ambos os braços para trás. Kémeron também avança contra seu oponente em alta velocidade, com as pernas a emitirem uma fraca luz dourada. Sua espada urge novamente em sua mão direita e é conduzida para trás de seu corpo.

Em segundos ambos os guerreiros se encontram e suas armas se colidem. Os impactos causados pelos diversos golpes desferidos ecoam pela área. Em uma sequência de movimentos rápidos a fera consegue afastar a arma de seu rival e golpeia-lhe a face com sua própria cabeça. O comandante tonteia com este golpe e é arremessado novamente ao chão por outro chute desferido pelo seu adversário, empurrando seu corpo no ar antes de cair de rosto no solo.

O Fhst (General) caminha em sua direção girando a espada pela frente de seu corpo erguendo-a com ambas as mãos em um movimento circular para aplicar-lhe o golpe final. Sua vítima permanece desnorteada e gemendo de dor enquando a espada azulada de seu inimigo desce do céu em sua direção.

Mais rápido que seus olhos pudessem alertá-lo, uma lâmina dourada surge entre seus braços seguindo em direção de sua face. O líder alienígena inclina sua cabeça para o lado e tem a lateral direta de seu rosto cortada pela lâmina brilhante. Um novo movimento é realizado e seu abdômen é castigado com uma joelhada cheia de energia. O Kártama (Guerreiro) afasta-se com rapidez e salta para trás, desviando de um novo movimento desde combatente que atentou contra sua vida.

O Fhst (General) rosna prolongadamente e observa o guerreiro que caminha com passos largos até o comandante abatido e tenta reanimá-lo.

– Minha cabeça! – Ele leva a mão direita para o membro e abre os olhos enxergando uma mão estendida em sua direção – Marcelo?!

– Consegue levantar-se Kémeron? – Pergunta o príncipe.

Seu rosto e suas vestes estão imundos pelo sangue negro dos invasores que aniquilou. Sua energia não se manifesta mais e apenas sua espada resiste em sua outra mão.

– Sim. – Ambas as mãos se encontram e permitem que seu corpo se levante. – Esse daí está bastante difícil de exterminar. – Os aliados observam a criatura que permanece a ostentar seus afiados dentes para eles.

– Então vamos terminar com ele agora! Venha comigo! – Pede o príncipe.

– Como quiser meu amigo. Irmãos para sempre!

Poucos metros atrás deles o Comandante Métt cai de joelhos, pressionando com força os seus dentes tentando não gritar. Seu corpo treme de modo assustador.

– Não desista agora Métt! Falta muito pouco! – Diz a princesa.

– Coragem. Você é um dos Comandantes Stars! – Afirma Fernando com severidade.

– Eu sei... – geme – podem contar... – grita – comigo... – Sua voz praticamente não pode mais ser ouvida.

– Não desista você também, pai! Por favor, resista! Não nos abandone! – Insiste a princesa ao pai pálido e imóvel.

– Sheilla, falta muito para ele acordar? – Pergunta seu irmão, em alto tom.

– Não. Continue! – Responde agoniada.

Os ferimentos profundos em seu corpo já estão praticamente cicatrizados, porém o Guardião ainda não recobrou a consciência.

O Fhst (General) garnaxiniano volta a rosnar para seus desafetos e segura sua espada com ambas as mãos.

– Ioninem crinis. (Ataquem eles). Vraristem! (Assassinem)! – O berro do líder invasor é escutado de longe.

Kártamas próximos ao seu líder avançam na direção do rei abatido, liderados por seu soberano sedento por sangue.

– Isso esta cada vez pior. Preparem-se! – Afirma o Comandante Kémeron.